fevereiro 06, 2008



CONTRARIEDADES

Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrível! Já fumei três maços de cigarros
Consecutivamente.

Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
Tanta depravação nos usos, nos costumes!
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes
E os ângulos agudos.

Sentei-me à secretária. Ali defronte mora
Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes;
Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes
E engoma para fora.

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas!
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica.
Lidando sempre! E deve conta à botica!
Mal ganha para sopas...

O obstáculo estimula, torna-nos perversos;
Agora sinto-me eu cheio de raivas frias,
Por causa dum jornal me rejeitar, há dias,
Um folhetim de versos.

Que mau humor! Rasguei uma epopeia morta
No fundo da gaveta. O que produz o estudo?
Mais uma redacção, das que elogiam tudo,
Me tem fechado a porta.

A crítica segundo o método de Taine
Ignoram-na. Juntei numa fogueira imensa
Muitíssimos papéis inéditos. A Imprensa
Vale um desdém solene.

Com raras excepções, merece-me o epigrama.
Deu meia-noite; e a paz pela calçada abaixo,
Um sol-e-dó. Chovisca. O populacho
Diverte-se na lama.

Eu nunca dediquei poemas às fortunas,
Mas sim, por deferência, a amigos ou a artistas.
Independente! Só por isso os jornalistas
Me negam as colunas.

Receiam que o assinante ingénuo os abandone,
Se forem publicar tais coisas, tais autores.
Arte? Não lhes convém, visto que os seus leitores
Deliram por Zaccone.

Um prosador qualquer desfruta fama honrosa,
Obtém dinheiro, arranja a sua "coterie";
E a mim, não há questão que mais me contrarie
Do que escrever em prosa.

A adulação repugna aos sentimento finos;
Eu raramente falo aos nossos literatos,
E apuro-me em lançar originais e exactos,
Os meus alexandrinos...

E a tísica? Fechada, e com o ferro aceso!
Ignora que a asfixia a combustão das brasas,
Não foge do estendal que lhe humedece as casas,
E fina-se ao desprezo!

Mantém-se a chá e pão!Antes entrar na cova.
Esvai-se; e todavia, à tarde, fracamente,
Oiço-a cantarolar uma canção plangente
Duma opereta nova!

Perfeitamente. Vou findar sem azedume.
Quem sabe se depois, eu rico e noutros climas,
Conseguirei reler essas antigas rimas,
Impressas em volume?

Nas letras eu conheço um campo de manobras;
Emprega-se a "réclame", a intriga, o anúncio, a "blague",
E esta poesia pede um editor que pague
Todas as minhas obras...

E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha?
A pobre engomadeira ir-se-á deitar sem ceia?
Vejo-lhe a luz no quarto. Inda trabalha. É feia...
Que mundo! Coitadinha!

(Cesário Verde)

(Ilustração: Fabrice de Villeneuve)

6 Comments:

Blogger fresquinha said...

Pensava que estavas no Rio de Janeiro, de férias de Carnaval ...

:-)

06 fevereiro, 2008 18:26  
Blogger Mac Adriano said...

Gosto de Cesário Verde porque os seus poemas têm substância. Leio-os e percebo grande parte. Quando não percebo, não gosto. E, com a maioria dos poetas, é o que acontece quase sempre. Sobretudo os contemporâneos.

Será que hoje, século XXI, a Censura deixava que se publicasse este poema? Acho que Cesário teria de retirar a parte que diz "Já fumei três maços de cigarros / Consecutivamente". Ou então, ia ter de explicar no poema que, afinal, quem tinha fumado os três maços de cigarro tinha sido a vizinha, e por isso é que está tão doente. Que saudades já tenho do século XX (e até desse século XIX em que não vivi). O século XXI é o Século dos Idiotas, já não o suporto! BeijInha (manda a conta quando estiver pronta).

08 fevereiro, 2008 10:46  
Blogger Pseudo said...

Não li o poema, é possível que o faça mais tarde. De qualquer modo, sem o ler, percorri-o até ao fim à espera de encontrar como autor Pablo Neruda, já que foi quem a imagem me lembrou, a ele e so seu carteiro :)

10 fevereiro, 2008 10:31  
Blogger O Chaparro said...

passei p desejar bom resto d semana

11 fevereiro, 2008 17:05  
Blogger fresquinha said...

Tens lá uma contrariedade no meu blog ...

12 fevereiro, 2008 14:14  
Blogger fresquinha said...

Eu disse bem : "contrariedade" ... Quem diz a verdade não merece castigo !

12 fevereiro, 2008 19:23  

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